segunda-feira, 23 de junho de 2008

Resenha de "O urbanismo como modo de vida", por Paloma Karuza Maroni da Silva.

Resenha do texto: WIRTH, Louis: O urbanismo como modo de vida. In Velho, Otávio (org.), O Fenômeno Urbano, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 1979.

1) Idéia central:

Louis Wirth apresenta nesse texto uma definição sociológica de cidade, fundamentada nas relações entre a quantidade, densidade e relativa permanência da população e a heterogeneidade dos habitantes da cidade. A partir dos postulados implícitos no conceito de cidade, o autor propõe a formulação de hipóteses acerca das formas de organização social e de ação características da vida urbana, visando a construção de um corpo teórico da sociologia urbana por meio de sucessivas elaborações teóricas e aplicação de pesquisas empíricas.

2) Principais conceitos utilizados:

- modo de vida; urbanismo; densidade; civilização; urbanização; cidade; personalidades urbana e rural; processo de interação; diferenciação social; heterogeneidade; tradição folk; status flutuante; sistema de comunicação; tecnologia de produção.

3) Síntese:

O autor começa por estabelecer a relação histórica entre a cidade moderna e o complexo de idéias, práticas e códigos sociais que chamamos de civilização. O urbanismo é apresentado como um complexo de caracteres que formam o modo de vida tipicamente urbana. Um desdobramento desse conceito é que não se pode mensurar o grau de urbanidade da civilização contemporânea pela simples determinação da proporção da população que habita as cidades. A influência do modo de vida urbano está além dos limites da cidade, expansão que só é possível pelas intensas trocas proporcionadas pelo sistema de comunicação e pela adoção generalizada da tecnologia e das relações sociais de produção modernas. É importante lembrar que os espaços rurais não estão isolados do centro urbano, ao contrário, a lógica urbana integra os diversos setores da sociedade, incluindo as áreas rurais, em seu universo político, econômico, cultural e social. Portanto, é impossível falar em cidade pura ou em campo puro, ambos são tipificações ideais de formas de comunidades e de relações sociais. A realidade abriga diversas gradações que se encontram entre esses tipos extremos.
Percebendo a arbitrariedade de se definir uma comunidade como sendo urbana fundamentada apenas no tamanho da população ou em sua densidade, o autor propõe que se faça referência a características sociais significativas na conceituação do urbano. Há dessa forma uma diferença entre a definição sociológica de cidade e seus limites administrativos ou legais captados pelo recenseamento urbano. Nas palavras do autor, sua definição de cidade: “(...) um núcleo relativamente grande, denso e permanente, de indivíduos socialmente heterogêneos” (p. 96).
Algumas proposições derivadas do conceito de cidade são levantadas pelo autor. Quanto maior a heterogeneidade e densidade da população, mais intensamente se manifestarão as características do urbanismo. O grau de interação social também é uma variável importante, quanto maior for o número de indivíduos se relacionando na sociedade, maior será a diferenciação potencial entre eles. O autor também aposta na continuidade de algumas tendências, como o desaparecimento da tradição de folk e da significação dos vínculos de parentesco e da família como instituição central.
O aumento do número de habitantes interagindo modifica a forma das relações sociais, que tendem a transitoriedade, superficialismo, fragmentação e anonimato. As relações sociais passam a se pautar na lógica utilitarista, devido à pressão da divisão do trabalho e da especialização dos indivíduos. A forma política característica do modo de vida urbano é o sistema representativo. Assim, o indivíduo precisa se articular em diversos grupos de interesses para se valer na arena política e social.
A densidade populacional tende a vir relacionada com a diferenciação social e os grandes contrastes urbanos, tanto de natureza econômica como social e cultural, o que pode potencializar tensões nervosas. A distribuição dos diferentes grupos na cidade não ocorre por acaso, obedece a uma lógica urbana de classificação, seleção e alocação de indivíduos, recursos públicos, instituições e serviços. Essa lógica está relacionada a vários fatores como o mercado de consumo e de mão-de-obra. As diferentes localidades acabam por se inserir na lógica urbana de formas variadas, surgindo assim as desigualdades regionais e dominância dos centros urbanos. A mobilidade seria outro traço marcante do modo de vida urbano, manifestando-se no status flutuante do sujeito no meio sócio-econômico, no elevado grau de renovação dos membros dos diferentes grupos e nas mudanças contínuas de residência e local de emprego.

4) Comentários, dúvidas e ou críticas:

O autor incorre em vários erros ao derivar características do modo de organização urbana do conteúdo esquemático do conceito de cidade. Ele acaba naturalizando a vida urbana e ao mesmo passo idealizando-a. Para ele, a cidade “não só tolerou como recompensou diferenças individuais. Reuniu povos dos confins da terra porque eles são diferentes e, por isso, úteis uns aos outros e não porque sejam homogêneos e de mesma mentalidade” (p.98). Do postulado da heterogeneidade como caráter urbano, Wirth formulou várias de suas hipóteses, como a tendência da especialização dos indivíduos, inspirada na teoria de Durkheim da divisão do trabalho social, como seu conceito de solidariedade orgânica. Em termos durkheimianos, quanto maior o volume, a densidade moral e material da sociedade, maior a pressão pela divisão do trabalho social. A partir dessas idéias, o autor supõe uma lógica implícita da cidade: o diferente é bom, uma vez que é útil, e portanto tende a ser respeitado e tolerado no meio urbano. Essa idéia carece de verificação empírica. Ao mesmo tempo em que os centros urbanos são relacionados à diversidade e maior tolerância, também são relacionados às desigualdades sociais, marginalização de grupos e intolerância frente a outros, minoritários ou não.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Resenha de "Migrações internas: considerações teóricas sobre o seu estudo", por Louíse Neves Silva.

Resenha do texto: SINGER, Paul. Migrações internas: considerações teóricas sobre o seu estudo. In: “Economia Política da Urbanização”. São Paulo: Editora Brasiliense; 1975.

A idéia central do texto é que as migrações internas são decorrentes tanto de aspectos históricos e institucionais como de mudanças estruturais e espaciais da economia. Devem ser vistas sob a ótica de um processo global, sendo caracterizadas como um processo social em que a unidade atuante não é o individuo, mas o grupo e/ou classe social. Assim, o autor estabelece estreita relação entre migrações e industrialização.
O autor vai tecendo algumas hipóteses e constatações ao longo do texto. Primeiro, formula a “hipótese da existência de tipos historicamente definidos de migrações, condicionadas pela industrialização”(p.29). A industrialização modifica as técnicas de produção e a divisão social do trabalho. A transferência de atividades do campo para a cidade faz parte da exigência técnica da produção industrial. A concentração de capital leva à aglomeração espacial das atividades e à urbanização, mas as características institucionais e históricas devem ser levadas em conta. A industrialização não é um processo espontâneo, mas é influenciada por arranjos institucionais que agem na dinâmica econômica.
Outro ponto destacado, as desigualdades regionais são as grandes propulsoras das migrações internas ligadas à industrialização. Assim, o autor fala de fatores de expulsão que levam às migrações: os fatores de mudança e de estagnação. Os fatores de mudança fazem parte do próprio processo de industrialização e provoca uma emigração ampla, diferente dos fatores de estagnação, mas os dois se referem às áreas rurais e ao fluxo de pessoas. O quadro institucional pode ser usado a fim de levar ao desenvolvimento regional de áreas estagnadas, desequilíbrio “criado pelo próprio processo de industrialização institucionalmente condicionado”(p.39)
O autor aborda sobre os fatores de atração que orientam os fluxos migratórios, sendo a demanda por força de trabalho a mais importante. Tece 3 hipóteses sobre o fato de numerosos migrantes não serem absorvidos pelo mercado de trabalho: inferioridade econômica, desqualificação e desequilíbrio entre oferta e demanda. Esta última é a apoiada. A procura de força de trabalho nas cidades é uma “função do tamanho e da composição do produto gerado pela economia urbana” (p.43).
O poder das transformações tecnológicas e de seus efeitos socioeconômicos é muito maior nos paises não-desenvolvidos. Nestes paises há um “Setor de Subsistência” ainda forte que é transposto para a economia urbana: serviços domésticos, ambulantes, trabalho informal. Isto porque o fluxo migratório à área urbana é produzido em grande parte por fatores de estagnação.
O autor discute a questão da marginalidade urbana que é caracterizada por desníveis econômicos e tensões sociais, frutos do desenvolvimento “para dentro”, pois o comércio exterior não funcionou dinamicamente como nos países desenvolvidos. A marginalidade não decorre do excesso de migrantes, mas pela relação entre fluxo migratório e economia urbana. Para o autor, se a migração interna é um processo social, possui causas estruturais. Há uma seletividade objetiva de fatores de expulsão adicionada a motivações subjetivas. Os fatores estruturais que determinam o desdobramento das migrações no espaço e no tempo. O autor fala que o impacto econômico, social e político da migração no lugar de destino deveria ser encarado como parte do processo de transformação das estruturas sociais e, para isso, é importante estudar as migrações pelo ângulo de classe, da formação do exército industrial de reserva e dos laços sociais entre migrantes novos e antigos. Também convém estudar os fatores de atração do meio urbano sobre os migrantes.
Os conceitos usados pelo autor que dão base à sua argumentação são: marginalização/marginalidade, oferta, demanda, mercado de trabalho, força de trabalho, divisão social do trabalho, migrações internas, fatores de expulsão, de mudança, de atração e de estagnação, desenvolvimento regional, configuração histórica, arranjo ou quadro institucional, economia urbana, concentração espacial, industrialização, desemprego tecnológico, produtividade, especialização, mudanças técnicas, estruturas sociais e econômicas, classe, exército industrial de reserva, entre outros.
O autor remete à questão dos limites da configuração histórica nas migrações internas, mas parece que ele vai analisar este aspecto só quando fala das diferenças entre países desenvolvidos e não-desenvolvidos, se atendo mais a aspectos econômico-institucionais quando fala das migrações internas em si. O livro em que se encontra o texto é sobre a “economia política da urbanização”, mas não me agrada uma abordagem tão centrada na economia (que pela relação direta entre migração-industrialização, explícita pelo autor, faz todo sentido). Singer pouco se detém no que sugere no final do texto, a própria dinâmica social da migração - os laços sociais entre migrantes e os fatores de atração.

domingo, 27 de abril de 2008

A Brasília de Danuza, por Brasilmar Ferreira Nunes.


O artigo da colunista Danuza Leão neste domingo (Folha de São Paulo: 23/03/08) nos brinda com uma análise curiosa dos políticos e, termina expressando um desejo um pouco parecido com a rotina em algumas favelas do Rio de Janeiro: “a vontade que dá é de jogar uma bomba – várias aliás – e acabar com Brasília”(sic). A proposta é no mínimo curiosa na medida em que é feita por uma moradora daquela cidade que, apesar de ter mais funcionários públicos no Brasil (mais do que Brasília), mesmo assim, vive afundada em mazelas de toda ordem, inclusive entre seus políticos. Significa no mínimo que, em deixando de ser capital federal e, portanto, abrindo mão dos parlamentares federais no seu território, inclusive explodindo o Palácio Monroe para não deixar vestígios desta gente, tudo continua como antes na terra de São Sebastião.
A nova capital, em tão pouco tempo, transformou-se numa das referências da tão procurada identidade nacional, mesmo se um pouco profana, pois construída em pleno século XX, longe das influências de elites históricas ou de tradições, algumas delas duvidosas, surgindo no meio do nada. Talvez seja esse descompromisso com os padrões estabelecidos que permitiu esta verdadeira heresia: tirar o título de capital do país do Rio de Janeiro, que embora já o tivesse tirado de Salvador da Bahia, o fez na época segundo os cânones então legítimos. Brasília é inovadora também por isso: feita com base em princípios racionais de desenho e... suprema heresia, sem história. Aparece no imaginário como a vontade exclusiva de um político do interior do Brasil, talvez dotado de uma premonição um pouco fora da média, enfrentando o descrédito quase generalizado de todos, com exceção talvez dos que ali viam a possibilidade de emprego, os candangos.
Assim, passado esses anos, algumas representações sobre Brasília já deixaram de ser levadas a sério pelos de bom senso. Sem bairrismos de boteco, talvez a real ilha da fantasia no Brasil esteja ainda no Rio de Janeiro mostrado pelos meios de comunicação, nos festejos carnavalescos, nas telenovelas, na escolha da musa de verão, na propaganda de bebidas.... Neste ano em que se comemora a chegada da Corte no Rio de Janeiro, quando livros e pesquisas aparecem mostrando o real significado daquele desembarque apressado, o Rio colonial é mostrado sem as cores da tv. Talvez apontando que a sua história é também plena de pontos obscuros. Hoje a cidade se transformou num balneário que vive entre as guerras de quadrilhas e a rotina de uma precariedade urbana lastimável para quem já foi capital do pais. E tudo isso sem os parlamentares federais enviados de presente para o Planalto Central. Ilha da fantasia, por exemplo há muito deixou de ser uma metáfora adequada para caracterizar Brasília, mesmo se povoada também por políticos das mais variadas origens, inclusive carioca.
Não se pode, porém dizer que Brasília, às vésperas de completar 48 anos, seja exatamente uma senhora, que se ofendesse com essas pulsões. Pulsões essas meio inesperadas para alguém que escreve manuais de boas maneiras e conta quase tudo sobre sua proximidade ao longo da vida com certa elite nacional. Digamos que balzaquiana seja um termo mais apropriado para nos referirmos a Brasília, sobretudo nesses tempos em que a esperança de vida está prolongando a da média da população. Assim, sem dúvida um certo rubor na face, nada mais que isso é o que a cidade sente.
Brasilmar Ferreira Nunes é professor do Depto de Sociologia da Universidade de Brasília. Pesquisador do CNPq.

Brasilia – quase meio século, por Brasilmar Ferreira Nunes.


De maneira recorrente, as críticas sobre Brasília insistem sobre o desenho da cidade, caindo num senso comum repetitivo e cansativo. Nessas criticas, o espaço físico, o desenho da cidade, o seu plano urbanístico é o foco: não tem praças, não tem esquina, não tem calçada, não tem o boteco do bairro, não tem praia, e assim por diante. Como toda análise rápida e ordinária cai-se na armadilha de dizer o que ela não é, ao invés de dizer o que ela é.
Brasília faz 48 anos. Tempo longo se pensarmos no que era o Brasil dos anos 50/60 do século passado, porém irrisório se pensarmos nos longos ciclos da história universal e mesmo brasileira. Documentos oficiais nos lembram que a cidade foi pensada como um marco nacional permanente, algo assimilável nestes termos ao Hino Nacional e à Bandeira, tendo como função principal representar o país para si mesmo. Podemos afirmar que o papel de capital política do país está devidamente consolidado. Isso pode ser demonstrado por diferentes análises. Basta lembrar que uma manifestação política na Esplanada dos Ministérios repercute com muito mais força do que em qualquer outro espaço urbano do país, conseguindo, portanto, num curto período de existência, adquirir a centralidade política que extravasa a função administrativa do Estado e alcança a dimensão simbólica do fazer política. . O fato de ter sido construída para ser capital política já lhe garante um lugar privilegiado dentre as cidades brasileiras e o seu desenho só viria a somar a esta importância que é concreta.
Trata-se de uma cidade que por suas funções não necessita disputar lugar com outros sítios: sua importância lhe é inerente. Caso exemplar do urbanismo do século XX é tombada pela UNESCO como “Patrimônio Cultural da Humanidade”, quando ainda estava para completar seus 30 anos de existência. Estamos beirando os dois milhões e meio de habitantes, dos quais, aproximadamente 15% estão neste Plano Piloto de origem. Os demais estão espalhados por cidades satélites, numa conformação polinucleada, de tal forma que à primeira vista parecem independentes entre si. Entretanto, Brasília (Plano Piloto) concentrando cerca de 70% do emprego formal transforma uma boa parte das satélites em cidades dormitórios, numa dependência visceral do Plano Piloto, rapidamente adquirindo status de centralidade.
Os critérios utilizados para classificar a área tombada ficaram distantes daquela que comandava os debates sobre um possível tombamento de Brasília nos fins dos anos 70 e anos 80 quando se discutia a sua pertinência e viabilidade. Poderíamos destacar, por exemplo, a constituição de um grupo interinstitucional formado por professores da Universidade de Brasília, técnicos da Fundação Nacional Pró-Memória (Ministério da Cultura) e o Governo do Distrito Federal , grupo este denominado “Grupo de Trabalho para a Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Natural de Brasília (GT-Brasiilia)”, cujas primeiras discussões são já dos fins dos anos 70. O objetivo era traçar e definir parâmetros para a política de preservação do patrimônio do Distrito Federal. Analisando documentos técnicos e acadêmicos produzidos pelo grupo constata-se uma concepção de patrimônio presente naquele momento envolvendo a paisagem original e pequenos povoados pré-existentes à cidade. Entretanto, o discurso da arquitetura aplicado a Brasília ganha força com a passagem de Lucio Costa pela cidade em 1987, pouco antes de seu tombamento: há neste momento um retorno à hegemonia do desenho sobre os aspectos culturais defendidos pelo GT-Brasilia.
Levanto tais questões de forma ampla apenas para ressaltar que a cidade cresce através de dinâmicas múltiplas, gerando um espaço social a velocidades variadas. Entre o urbanismo de primeiro mundo que caracteriza a área nobre da cidade e as leis de mercado, às vezes selvagem de ocupação do solo em várias satélites, são realidades distintas que se apresentam para um observador mais atento. Por um lado, o tombamento freia forças de mercado que poderiam descaracterizar o desenho original, dando a impressão de que se engessou o espaço transformando-o em um museu dos anos 50. Por outro, as satélites gozando de uma liberdade relativa e povoada por grupos de múltiplas características, produz espaços urbanos e culturais com enorme dinamismo. Veja por exemplo, as práticas culturais de jovens de Ceilândia ou de Taquatinga, a formação de torcidas organizadas de futebol, o culto a tradições populares da cultura brasileira como o carnaval, tudo acontecendo com muito mais evidência nas cidades satélites.
Uma rápida olhada nas transformações do espaço no Plano Piloto revela uma dinâmica intimamente adaptada às novas modalidades do mercado de cidades no plano nacional e internacional. Os equipamentos de consumo que são permanentemente construídos são padronizados para atender a um gosto de classe que tem que se sentir integrada numa modernidade clichê: são shopping centers, equipamentos culturais, hotéis, aeroporto, parques, museus, cinemas, todos em continuo processo de implantação e multiplicação guardando sempre os padrões da estética globalizada e sua lógica de uniformização da sensibilidade.
Enquanto isso, nas satélites apesar de certo ar de improviso na estética urbana aí presente, sente-se uma vibração que, apesar de discreta, revela muito das expectativas dos seus moradores. Um mercado habitacional super dinâmico, uma variedade de comércio típico de áreas com renda heterogênea e uma espécie de otimismo velado que é próprio de áreas com elevados índices de mudança.
Há portanto no caso de Brasília uma interessante oportunidade para se refletir sobre o espaço construído como síntese de uma sociedade. Ao mesmo tempo, o peso simbólico do Plano Piloto fortalecido no conceito de patrimônio cultural auxilia nesta distância social assimétrica à realidade das cidades satélites, oferecendo as bases para a idéia de memória nacional que se apresenta, de fato, altamente seletiva. Neste caso, “patrimônio cultural” não se articula mecanicamente com “tradição” mas vai ser a condição mesma para a transformação de um espaço sem história no símbolo da nação.

Bibiografia
Joseph, Isaac: La ville sanos qualités Paris, Éditions de l´Aube, 1998
Kolsdorf, Maria Elaine: A preservação dos espaços urbanos: marco teórico para o caso de Brasília. : Síntese dos trabalhos do GT Brasília p.8-18
Ribeiro, Sandra Bernardes: Brasília – Memória, Cidadania e Gestão do Patrimônio Cultural. São Paulo, Annalume, 20005
Leite, Rogério Proença: Contra-Usos da Cidade – Lugares e Espaço Público na Experiência Urbana Contemporânea. Campinas SP, Edit. UNICAMP; Aracaju SE, Edit. UFS, 2004
Jacques, Paola Berenstein: Espetacularização Urbana Contemporânea in Cadernos do PPG-FAU Territórios Urbanos e Políticas Culturas, Salvador, FAU-UFBA, 2004
Brasilmar Ferreira Nunes é professor do Depto de Sociologia da Universidade de Brasília, Pesquisador do CNPq.

Exposição Brasília Faz Bem Azulejos, Verdelejos...

Exposição Brasília Faz Bem Azulejos, Verdelejos...

Em homenagem aos 48 anos da cidade, o Terraço Shopping traz a Exposição Brasília Faz Bem Azulejos, Verdelejos... de 22 a 30 de abril. A mostra abriga estampas para ladrilhos criadas pelo Projeto Iconografia Aplicada DF, das artistas Carla Assis, Fátima Bueno e Ligia de Medeiros.

As três se juntaram para criar arte tendo a capital federal como tema e assinam a coleção inédita a ser exposta no Terraço. A exposição reúne vinte novos painéis em azulejos destinados a paredes e murais, em complemento à arquitetura. O grafismo dos azulejos explora a cartografia, os monumentos e o cerrado de Brasília.

Além da azulejaria, o trio atua com a proposta de abordar o repertório de ícones da cidade em diversos outros objetos artísticos e utilitários, como bandanas, canecas, cadernetas, estampas, tapetes, entre outros.

No final de 2004, Carla de Assis, Fátima Bueno e Ligia de Medeiros reuniram-se para planejar um trabalho de arte conjunto, tendo como tema a cidade de Brasília. Em maio de 2005, definiram fragmentos de monumentos, mapas e traçados urbanos, disposição de quadras, flora e fauna para aplicação em superfícies de diversos suportes como assuntos para pesquisa. Grafismos, malhas bidimensionais, recortes fotográficos surgiram para representar a cidade em objetos artísticos e utilitários, fortalecendo a identidade regional.

O projeto foi lançado com a exposição Brasília Faz Bem, na Referência Galeria de Arte em abril de 2007. Com a curadoria de Ralph Gehre, a galeria mostrou 26 painéis-repertório, parede de azulejos, instalações de objetos-ícones, bolsas, canecas, bandanas, cadernetas, digigravuras, jóias, painéis interativos, estampas adesivadas em vidro, recortes em superfícies rígidas.

Há produtos – arte, estampas e objetos – de autoria individual, identificadas, e parcerias entre as três idealizadoras do projeto.



Serviço
Exposição Brasília Faz Bem
Terraço Shopping – ala nova
De 22 a 30/04
Horário de 10h às 22h.
Informações: 3403-2992
Acesso livre e gratuito

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Resenha de "As causas sociais do declínio da cultura antiga", de Max Weber, por Carolina Vicente Ferreira Lima.

Resenha do texto:
Weber, Max. As causas sociais do declínio da cultura antiga. In Cohn, Gabriel (org.) Weber: Sociologia. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1997.


1. Idéia central tratada no texto:


A idéia central do texto é buscar as causas sociais do declínio da cultura antiga.
Para tanto, Max Weber procura encontrar nos aspectos internos, fundamentalmente nos aspectos sociais, as causas da queda do Império Romano.
Essas causas são encontradas em alguns aspectos sociais que se transformam ao longo do tempo e dão origem a novos tipos de relações sociais e a um novo tipo de organização político-econômica.
Pode-se destacar entre as causas do declínio o fim da tendência expansionista do Império, que levou a pacificação interna e externa e fez reduzir o aprovisionamento regular do mercado de escravos com material humano. A conseqüência dessa pacificação, segundo Weber, foi uma aguda crise de mão-de-obra e a posterior impossibilidade de que a produção progredisse com base nos quartéis de escravos. Assim, o escravo transforma-se em servo e é devolvido para a família e para a propriedade pessoal. A decadência da cultura antiga acontece, portanto, simultaneamente ao fortalecimento da família.
Além disso, a produção para a venda por meio do trabalho prestado nas condições da Antiguidade torna-se inviável, pois para a produção comercial era pressuposto imprescindível o quartel disciplinado de escravos. As grandes propriedades desligam-se assim do comércio e do mercado da cidade.
As cidades sem as trocas mercantis vão ao longo do tempo perdendo a sua importância.
Sendo assim, para Max Weber as causas da queda do Império podem ser encontradas em todos esses aspectos, principalmente no desaparecimento gradual do comércio e no conseguinte crescimento da economia natural e arrefecimento das atividades comerciais urbanas.


2. Principais conceitos utilizados:


Cidade: local portador da vida política, assim como da arte e da literatura. É também um local que se baseia originariamente na troca.
Oikos: organização de economia natural com centro na unidade doméstica patriarcal ou patrimonial.
Quartel de escravos: conjunto de escravos que pertencem a um proprietário e trabalham nas terras deste. Esses escravos não possuem família, nem propriedade. O trabalho realizado por eles é rigorosamente disciplinado e é inspecionado por capatazes.
Servo: trabalhador rural que cultiva a terra conferida pelo senhor e que em compensação está obrigado a determinadas prestações.


3.Breve síntese do texto:


As causas do declínio do Império Romano não são externas ao Império. Quando este se fragmentou, não foi subitamente, no embate com alguma força poderosa. As causas de seu declínio podem ser buscadas em fatores internos.
Max Weber lembra, entretanto, que a desagregação do Império não coincide com a derrocada da cultura da Roma Antiga. Segundo ele o Império Romano, considerado como entidade política, sobreviveu vários séculos ao apogeu de sua cultura. Já em princípios do século III a literatura romana, a poesia latina e grega e a historiografia já haviam se esgotado.
Assim sendo, a principal questão que o autor busca responder ao longo do texto é esta: a que se deve a queda da cultura no Mundo Antigo?
Ele argumenta que foram usadas as mais variadas explicações para dar resposta a essa pergunta. Alguns estudiosos dizem que a desagregação do Império se deve ao despotismo que teria, em certa medida, esmagado psiquicamente o homem antigo, sua vida pública, sua cultura. Outros dizem que as causas são o luxo e a imoralidade dos círculos sociais mais elevados. Ou ainda, a causa seria a mulher romana emancipada e o rompimento do vínculo matrimonial entre as classes dominantes que teriam desfeito as bases da sociedade. Utilizou-se até mesmo uma hipótese darwinista que afirma que o processo de seleção, praticado no recrutamento do exército, e que condenou ao celibato os mais fortes, acabou por degenerar a raça antiga.
Porém, para sua explicação, Weber não considera nenhuma dessas hipóteses. Ele utiliza fundamentalmente causas sociais.
Para explicar a queda do Império Romano Max Weber considera importante analisar as peculiaridades da estrutura social da Antiguidade, pois segundo ele o ciclo de desenvolvimento da cultura antiga está determinado por elas.
Sendo assim, é importante ressaltar primeiramente o caráter urbano da cultura antiga. Nessa cultura a cidade é portadora da vida política, assim como da arte e da literatura. Também é a cidade o centro econômico, onde ocorrem as trocas dos produtos da indústria urbana com os frutos da estreita orla agrícola circundante.
A cultura antiga da Europa é também uma cultura litorânea, assim como sua história é, de início, a história das cidades costeiras, algumas sendo os grandes centros comerciais da época.
Quanto ao comércio, este não era muito intenso e reduzia-se a uma fina camada de artigos de luxo. As trocas ocorridas nas cidades são diretas e imediatas entre produtores e consumidores, cobrindo assim, as necessidades sem importação do exterior.
A cultura antiga é também uma cultura escravista. Os escravos eram obtidos por meio de guerras, que levavam constantemente material humano para o mercado, e que desta maneira fomentavam o trabalho servil e a acumulação de homens.
Ao longo do tempo algumas dessas características da cultura antiga vão mudando. Uma das mudanças é que com a inclusão de grandes áreas de terras interioranas, fortalece-se de modo decisivo a significação cultural do trabalho servil. O centro de gravidade da população do Império Romano translada-se para o interior. Com isso, a cultura antiga muda seu cenário, convertendo-se de cultura litorânea numa cultura interiorana. O proprietário de escravos passa a ser, assim, o suporte econômico da cultura antiga, e a organização do trabalho de escravos passa a constituir a infra-estrutura imprescindível da sociedade romana.
Segundo Weber o ponto crítico da evolução da cultura antiga se dá com uma aguda crise de mão-de-obra. Com o fim da tendência expansionista do Império Romano e, com a pacificação interna e externa, contrai-se e reduz-se o aprovisionamento regular do mercado de escravo como material humano e, assim, instala-se uma crise de mão-de-obra. Com isso torna-se impossível continuar a produção com base nos quartéis de escravos.
Em conseqüência o escravo transforma-se em servo e passa a possuir uma família, assegurando, assim, a renovação e, portanto, uma provisão permanente de força de trabalho, que já não podia ser procurada no mercado de escravos.
Essa evolução trata-se de um forte processo de transformação nas camadas inferiores da sociedade: a família e, paralelamente a esta, a propriedade pessoal são restituídas às camadas inferiores.
Assim, as trocas comerciais vão paulatinamente diminuindo, pois para a produção comercial era pressuposto imprescindível o quartel disciplinado de escravos. Nas regiões internas principalmente, em que os servos viviam esparramados em casarios, a produção para a venda teve que acabar e os sutis fios de comércio, estendidos sobre aquele fundo de economia natural, tiveram que se enfraquecer mais, e por fim, romper-se.
É desta maneira, portanto, que Max Weber explica a queda da cultura antiga. Para ele a queda do Império Romano foi a forçosa conseqüência política do desaparecimento gradual do comércio e do conseqüente crescimento da economia natural. E, na essência, significou tão-somente a eliminação do antigo aparelho administrativo e, portanto, da superestrutura política de um regime de economia monetária, que já não se ajustava à infra-estrutura econômica, que vivia num regime de economia natural.


4. Comentários, dúvidas e/ou críticas:


Max Weber se propõe a encontrar as causas sociais do declínio da cultura antiga e de fato muitas das explicações dadas por ele são sociais, tais como o fortalecimento da família e o surgimento de novas relações sociais e de trabalho, que é o caso, por exemplo, da relação entre servos e o proprietário da terra. Entretanto, boa parte de sua explicação está calcada em aspectos econômicos, tais como o desaparecimento gradual do comércio e o crescimento da economia natural. Assim, pode-se dizer que sua explicação é essencialmente social, mas que também leva em consideração muitos aspectos econômicos.
Algo que também é importante ser destacado é o desaparecimento da cidade e o quanto esta era muito importante para o que Max Weber chama de cultura antiga. Segundo ele era a cidade a portadora da Arte, da Literatura, da Ciência. Com o desaparecimento dela desaparece também a cultura. Além disso, vale destacar que o que leva a derrocada da cidade é o desaparecimento do comércio, provando assim que a cidade é o local da troca e do comércio, quando este diminui sua intensidade a cidade desaparece também.