terça-feira, 6 de novembro de 2007

1ª resenha de "Alguns princípios da estratificação" - por Pedro Paulo

Resenha do texto: DAVIS, Kingsley e MOORE, Wilbert E. Alguns princípios de estratificação. In: VELHO, Gilberto. (Org.) Estrutura de classes e Estratificação social. Rio de Janeiro, Zahar Edit. , 1974.

Neste texto, os autores fazem uma analise de como a sociedade se utiliza de mecanismos de desigualdade social para incentivar a ocupação de determinadas funções dentro do “quadro social”. Afinal, todas as sociedades, independente do seu tamanho ou desenvolvimento tecnológico, precisam executar certas “funções” para que haja a sua subsistência e reprodução.

A sociedade necessita de indivíduos desempenhando determinados papéis para o seu funcionamento; segundo os autores, nem todas as funções são tão agradáveis de desempenhar quanto outras e nem todas as pessoas possuem qualificações para desempenhar certas funções; dessa maneira, a sociedade se utiliza de alguns “motivadores” para que os indivíduos mais aptos e mais qualificados ocupem essas funções. Através de um sistema de recompensas, a sociedade motiva os indivíduos. Essas recompensas podem ser: uma remuneração (salário) que garanta a sobrevivência da pessoa e o prestigio associado à função (que se refere à auto-estima do sujeito). Obviamente, as funções mais importantes e “necessárias” serão aquelas que vão “premiar” o indivíduo com um melhor salário e um maior prestígio (principalmente se comparadas a uma função de menor “importância”, seja porque essa função dispõe de muitas pessoas para executá-la, seja porque ela não é “socialmente estimada”).

Para estes autores, existem alguns determinantes para a “hierarquia das posições”; são eles: a importância da função para uma determinada sociedade e o treinamento e/ou o talento necessário para desempenhá-la. A sociedade, na verdade, somente necessita que uma função seja cumprida de forma satisfatória; nem todas suas funções, a despeito da sua importância, são recompensadas em proporção a sua contribuição para o funcionamento da “engrenagem social”. Dessa forma, se um cargo é facilmente preenchido, ele não precisa ser muito recompensado; por outro lado se é difícil preencher essa função, as recompensas para quem o fizer devem ser maiores. É importante lembrar que a posição de uma função na hierarquia, ainda assim, pode variar de acordo com os valores de cada sociedade, pois a despeito desses mecanismos, certas funções são mais desejáveis que outras (para a sociedade como um todo).

Em seguida outro fator é citado como importante para determinar a recompensa de uma função. Existem funções que requerem um treinamento especial, que pode ser longo e custoso, apesar de não ser necessária nenhuma capacidade mental ou talento extraordinário para exercê-las. Porém, esse longo processo de qualificação pode ser um entrave para que as vagas sejam “preenchidas”, daí, as recompensas devem ser suficientes para que valham o tempo despendido para a qualificação. (ex: médico)

Ainda segundo os autores, existem algumas funções principais em todas as sociedades, são elas: religião (toda a sociedade precisa de um sistema de valores religiosos) e o governo (que é indispensável e único, exercendo a violência legitima, mantendo a ordem, planejando e dirigindo a sociedade, etc).

O mecanismo de estratificação pode, às vezes, criar uma situação artificial de escassez para uma determinada posição, tendo em vista aumentar ainda mais o prestigio e as recompensas de uma determinada posição. Algumas posições, como já foi dito, podem necessitar de um talento especial ou treinamento. É comum que o acesso a alguns desses treinamentos e qualificações sejam controlados por alguns grupos, que tendem a manipular os mecanismos de acesso, de forma a aumentar o seu próprio prestigio.

Outra forma de distorção é o caso em que a recompensa por uma função é tão grande, que há um aumento excessivo da oferta de pessoas disponíveis, o que leva a uma desvalorização desta função, com a queda de seu prestigio e sua recompensa (ex: bacharéis em direto no Brasil). É interessante notar que este mecanismo pode ser perfeitamente explicado pela lei de oferta e procura.

Essas idéias sobre estratificação social são uma conseqüência lógica da divisão do trabalho social em Durkheim. Se cada vez mais as sociedades tendem a dividir o trabalho social, é lógico supor que essa mesma sociedade terá que dispor de mecanismos para articular essa divisão. Ao contrario de algumas correntes que consideram o trabalho dos grandes mestres da sociologia como mera “historia da ciência”, resignificar e recontextualizar seus trabalhos pode servir de grande ajuda nas análises de problemas recentes da sociologia.

Além disso, é importante pensar esses mecanismos como uma lógica intrínseca do funcionamento da sociedade; porém, mais importante é estar atento às nuances dessa idéia. Todas as sociedades tem valores que lhes são mais queridos, em comparação com outras sociedades. É fundamental ter isso em mente quando for fazer alguma analise baseada nesses conceitos; Além de usar recompensas materiais e sociais como incentivos para o desempenho de uma determinada função, não é raro que a sociedade apele para os possíveis “ocupantes” de um cargo em termos “valorativos”. Os indivíduos ocupam funções levando em conta os seus valores e aspirações, também.

Pedro Paulo Gonçalves de Araújo
Graduando em Ciências Sociais - colaborador.

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